Há dois meses com ministro interino, Saúde vive clima de medo e desconfiança


Nesta quarta-feira (15), o Brasil tem um “mesversário” sem muitos motivos para comemorar. Há exatos dois meses, o Ministério da Saúde está sob o comando do interino Eduardo Pazuello, general da ativa do Exército . Desde a saída do  oncologista Nelson Teich — que assumiu no dia 17 de abril, no lugar do também médico Luiz Henrique Mandettta , e pediu demissão em 15 de maio —, a pasta segue com uma gestão recheada de militares que mudou protocolos e rotinas do combate à Covid-19, além de enfrentar dificuldades para cumprir algumas promessas, como a distribuição de 46 milhões de testes. O ministério mergulhou em um clima interno de medo e desconfiança. Funcionários dizem que a tensão chegou ao ponto de servidores temerem que seus celulares estejam grampeados.


Um funcionário disse ao Extra que, nas reuniões sobre a pandemia , os especialistas da pasta passaram ser contestados com opiniões baseados no senso comum, e não com dados técnicos. Houve até relatos de ameaças de abertura de processos administrativos contra servidores e, segundo técnicos, não há espaço para se contestar os militares.
O Brasil viu a  curva de casos e óbitos crescer vertiginosamente durante os 61 dias da gestão de Pazuello. Em 14 de maio, o país tinha uma média de 9.627 casos diários de Covid-19; nesta terça-feira (14), este índice chegou a 36.650. Em relação aos óbitos, a média passou de 686 para 1.056 nestes dois meses.
"É uma situação sem precedentes no mundo. As entidades globais não conseguem entender como o país que é o segundo em número de óbitos do mundo não tem um ministro efetivo, apenas um interino que não se pronuncia e não transmite nenhum tipo de mensagem", critica Miguel Nicolelis, coordenador do comitê científico do consórcio de governadores do Nordeste, que define assim a situação:"O Brasil vive uma pandemia e um pandemônio".


Embora gestores de saúde dos estados apontem que houve uma melhora na distribuição de produtos necessários para o enfrentamento à doença, os secretários alertam que a distribuição continua abaixo do ideal, em especial em relação a testes para detectar o novo coronavírus . Em 24 de junho, o Ministério da Saúde reafirmou o plano da gestão Teich de distribuir 46 milhões de testes à população. Mas, segundo o portal Localiza SUS , do próprio ministério, foram distribuídos 12,5 milhões de testes até ontem (27%).
A pasta afirmou que “parte dos testes ainda está com o Ministério da Saúde por questão logística, pois os estados não possuem capacidade para armazenar uma grande quantidade de uma vez só”. E afirmou que os demais testes “serão distribuídos à medida que os estados tiverem capacidade de armazenamento adequada, bem como de utilização”.
Ao longo dos últimos dois meses, o Ministério da Saúde, que deveria seguir à risca evidências científicas, ignorou-as em alguns casos para atender a vontade do presidente Jair Bolsonaro, como na mudança de orientações sobre o uso de cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da Covid-1 9. Não há comprovação científica da eficácia dos remédios no combate ao novo coronavírus, mas Bolsonaro insistia no seu uso até mesmo nos casos leves — ele, inclusive, está tomando desde que foi diagnosticado com a doença, na semana passada. O ministério autorizava sua utilização apenas em pacientes em estado grave. Cinco dias após Pazuello virar ministro interino, a pasta autorizou o uso dos remédios desde o estágio inicial da doença .
Em junho, também por pressão de Bolsonaro , o ministério mudou a forma de divulgação dos números da Covid-19 , passando a publicar apenas a quantidade de casos e óbitos confirmados nas 24 horas anteriores, sem informar o total acumulado. A Justiça barrou a mudança e a divulgação voltou ao modelo anterior, que é defendido por especialistas da área científica para o acompanhamento da pandemia.
Na última quinta-feira (9), o ministério passou a recomendar que pacientes com sintomas leves de Covid-19 procurem atendimento médico imediatamente. Antes, a orientação era fazer isso somente quando a pessoa apresentasse sintomas mais graves ligados à infecção pelo novo coronavírus, como falta de ar.

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