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Bolsonaro demite Mandetta


Em meio à pandemia do novo coronavírus no Brasil, que já causou quase 2.000 mortes e ainda não chegou ao pico de contágio, o presidente Jair Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. A decisão foi confirmada por Mandetta no Twitter. A exoneração ainda não foi publicada no Diário Oficial.
Acabo de ouvir do presidente Jair Bolsonaro o aviso da minha demissão do Ministério da Saúde. Quero agradecer a oportunidade que me foi dada, de ser gerente do nosso SUS, de pôr de pé o projeto de melhoria da saúde dos brasileiros e de planejar o enfrentamento da pandemia do coronavírus, o grande desafio que o nosso sistema de saúde está por enfrentar”, escreveu Mandetta.

Com voz emocionada, Mandetta concede agora uma coletiva de imprensa no Ministério da Saúde. Ao entrar, ele foi ovacionado pelos auxiliares técnicos da pasta e pediu aos servidores que “não tenham medo” e acreditem sempre na ciência. “A ciência é a luz. É através dela que vamos sair disso”.

Há diversas semanas já havia incertezas sobre sua permanência no cargo diante da tensão com o presidente. Na noite desta terça-feira, 14, no entanto, Mandetta avisou diretamente sua equipe que Bolsonaro procurava um nome para substituí-lo.
O presidente começou a receber nesta quinta-feira, 16, cotados para o cargo. O primeiro foi o oncologista Nelson Teich, que levou a Bolsonaro suas exigências para assumir a chefia da pasta.
Nesta quarta-feira, 15, o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, enviou por e-mail uma carta a seus subordinados em que avisava que a saída do ministro estava programada para acontecer, e era a hora de se preparar para sair junto, já que só estava no cargo pela indicação do ministro.
Poucas horas depois, o secretário, responsável por toda a estratégia de combate à covid-19, pediu demissão. Mandetta, no entanto, não aceitou: “Entramos no Ministério [da Saúde] juntos, estamos no Ministério juntos e sairemos do Ministério juntos”, disse.
Mandetta é deputado licenciado pelo DEM e, mas afirmou que não deve voltar à política. A sua expectativa é deixar Brasília e ir para Campo Grande, sua cidade natal.

Pontos de tensão

A escalada de embates públicos entre o presidente e Mandetta vinha crescendo há mais de três semanas. Até o fim, o maior conflito entre os dois foi a questão do isolamento social como medida de proteção para conter a disseminação do vírus e com isso um colapso do sistema de saúde.
Enquanto Bolsonaro minimiza a questão do vírus e defende o relaxamento da quarentena, Mandetta sempre endossou essa ação, convergente com a orientação da maior parte das autoridades médicas e políticas de todo o mundo, assim como de governadores e da própria Organização Mundial de Saúde.
O uso da cloroquina para o tratamento do novo coronavírus também foi alvo de disputa narrativa entre Bolsonaro, defensor da medicação mesmo sem comprovação cientifica, e Mandetta, que pediu cautela aos médicos que prescrevem o remédio diante de inúmeros efeitos colaterais e altas doses de toxinas.
Essa briga, contudo, foi se dissipando ao longo dos últimos dias. O Ministério da Saúde sempre recomendou que a aplicação do remédio fosse feita apenas em pacientes graves e críticos, mas recentemente Mandetta passou a defender que os médicos usem sua autonomia para prescrever a cloroquina em outras fases da doença. A prerrogativa é que eles se responsabilizem por isso e informem os pacientes sobre os possíveis efeitos colaterais.

Ameaças e tréguas

No dia 6 de abril, Bolsonaro bateu o martelo a seus assessores que iria demitir o ministro, mas mudou de ideia após conversas com aliados e com a ala militar do governo. Na ocasião, a avaliação dos militares era a de que Mandetta tem amplo apoio da população e é cobiçado por governadores, o que poderia prejudicar a imagem já arranhada de Bolsonaro.
No mesmo dia, o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, que é do mesmo partido de Mandetta, o DEM, também entrou em jogo para evitar sua exoneração. Ele avisou a equipe do presidente que se a demissão fosse concretizada a relação do governo com o Parlamento “ficaria muito difícil”.
Nesse período, houve, inclusive, uma tentativa de trégua entre Bolsonaro e Mandetta, mas que durou poucos dias. No dia 9 de abril, o presidente ignorou orientações de distanciamento social e foi a uma padaria em Brasília. Ele provocou mais aglomerações no dia seguinte quando foi a uma drogaria. Na visita, ele fez questão de deixar claro: “ninguém vai tolher meu direito de ir e vir”.
No dia 11, ao visitar a construção de um hospital de campanha para atender pacientes com a covid-19 na cidade goiana de Águas Lindas, Bolsonaro cumprimentou populares e chegou a receber um beijo na mão. Autografou, ainda, a camiseta da seleção brasileira de uma apoiadora.
Ele estava acompanhado de Mandetta e do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que também é do DEM e foi o responsável pela indicação de Mandetta ao ministério da Saúde. Caiado sempre foi aliado de Bolsonaro, mas rompeu recentemente com o governo após o presidente classificar a covid-19 como uma “gripezinha” e ignorar as medidas de proteção e distanciamento social.
A gota d’água teria sido uma entrevista concedida por Mandetta ao Fantástico do último domingo, em que criticou “quem fura o isolamento”. Foi ai que o deputado licenciado perdeu o apoio da ala militar, que viu na entrevista um tom de provocação.
Até Integrantes do Ministério da Saúde observaram que, embora esteja defendendo orientações da OMS, Mandetta adotou tática errada ao falar em “dubiedade” na equipe sobre medidas para combater a pandemia e pedir por uma “fala única”.
Ele chegou a dizer que o brasileiro não sabe “se ouve o presidente ou o ministro” mesmo depois de alertado por militares sobre a necessidade de não expor diferenças com Bolsonaro em público.


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