Criar partido desagrada eleitor de maior renda


 

alta muita coisa no Brasil, mas não partidos políticos. Há 32 legendas registradas atualmente no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). É bem mais do que o necessário para representar as variações ideológicas significativas.
Ser presidente de 1 partido traz muitas vantagens. Mesmo os que não têm representação no Congresso recebem recursos do Estado. No próximo ano, todos terão pelo menos R$ 1,6 milhão, sem contar o acesso a tempo de rádio e TV, que deverá a voltar a ser concedido mesmo fora das eleições. O cacique de uma legenda nanica pode viajar pelo país e ser cortejado por pessoas que querem ser candidatas a cargos eletivos.
A existência de tantas siglas serve apenas a essas pessoas: quem quer tomar conta de 1 partido e quem quer entrar para a política com facilidade. Se fosse menor o número de partidos, elas teriam de se submeter aos filtros existentes para ter seus nomes registrados nas urnas. Só quem tem atuação partidária intensa, e há mais tempo, conseguiria.
Exatamente por essa razão, o público não vê com bons olhos a existência de tantas legendas. Tanto que os congressistas, a contragosto, criaram cláusulas de desempenho progressivas até 2030, que reduzem –embora não eliminem—o acesso a dinheiro público para quem não conseguir número de votos suficientes.
Eleitores com maior renda e maior escolaridade são os mais críticos à exuberância partidária, porque têm percepção mais clara do quanto pagam de impostos. Isso inclui todos os estratos da classe média, dos mais altos aos mais baixos, nos limites da riqueza e da pobreza.
Pessoas com esse perfil contribuíram bastante para a eleição de Jair Bolsonaro, que abraçou como causas a contenção de gastos públicos e o combate à corrupção, que drena dinheiro de impostos.
É natural, portanto, que venham a se frustrar com os esforços do presidente e de seu grupo político para criar uma nova legenda, a Aliança pelo Brasil. Pode-se argumentar muitas coisas a favor dessa aposta eleitoral. Em 1º lugar, que se o presidente se preocupar com o risco de desagradar, nunca fará nem fará nada. 2º, que o ganho compensa o prejuízo: será muito mais confortável ter uma máquina que possa ser integralmente controlada, sem pedir licença para as lideranças mais antigas.
Em 3º lugar há o fato de que esse eleitor de classe média não compõe o eleitorado inteiro, portanto desagradá-lo pode não trazer tanto prejuízo assim. Em, em 4º, que não é pelo descontentamento em 1 item apenas que deixarão de reeleger Bolsonaro, ainda mais se for para o 2º turno e tiver como oponente alguém de esquerda.
Pode ser. O fato é que os eleitores, de modo amplo, já têm 1 punhado de coisas com que se preocupar, incluindo a dificuldade de conseguir emprego, ou mesmo de trocar a posição atual por outra melhor. Deixar para trás a maior recessão da história tem sido uma tarefa bem mais difícil do que se esperava.
A tendência é que as pessoas acabem tomando a decisão em quem votar a poucos meses da eleição, quando a situação do país estará mais clara. Mas talvez valha a pena para os apoiadores de Bolsonaro evitar que os outros eleitores tenham tantas coisas para serem relevadas.

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