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Meu filho merece outro ambiente, diz morador de casa palco de chacina no RJ

Imagem: Pilar Olivares/Reuters 

Cinco dias depois da ação que deixou pelo menos 15 mortos nos morros da Coroa, Fallet, Fogueteiro e Prazeres, o dono da casa onde ao menos nove pessoas foram assassinadas negou que o imóvel tenha ligação com o tráfico de drogas -- versão que chegou a circular na mídia após a chacina.

Ele diz que tinha saído para trabalhar, que o filho de 6 anos estava em casa e que, agora, pensa em se mudar dali.

Não tenho medo de represálias ou coisa do tipo, mas acho que o meu filho precisa ser criado em outro ambiente.

Desde a última sexta-feira (8), o comerciante e a família não voltaram para a casa, a 50 metros do local onde ele trabalha. Ele pediu para não ter o nome revelado.

Rota de fuga

"Eles (os suspeitos) estavam fugindo da polícia e entraram no meu terreno pelos fundos, pulando o muro. Depois, subiram para o segundo andar, pela escada da área de serviço, onde ficaram entocados.Por sorte, minha família estava no térreo. A Polícia fez o cerco sem saber quem estava lá dentro", afirma o morador.

Ele relata traumas acarretados aos familiares que estavam presentes no local durante a invasão. "Estamos mortos psicologicamente", diz.

O homem refuta a versão policial de que o cerco à casa tenha sido feito depois de os policiais identificarem o local como esconderijo de criminosos.

Vi o amontoado de PMs armados e pensei no meu filho e no meu sobrinho lá dentro. 'Bati boca' com os policiais, que não me deixavam furar o cerco e demoraram para liberar a saída das crianças, que estavam lá dentro com o meu cunhado. 'Dobrei a rua' e ouvi os tiros vindos da minha casa.

De acordo com relatos de familiares dos mortos à Defensoria Pública do Rio de Janeiro, os policiais afastaram quem tentava se aproximar da casa. Para isso, usaram de agressões, ofensas e bombas de gás lacrimogêneo. A PM nega os relatos, que são confirmados pelo proprietário da casa.
"A pior cena que já vi"

Morador há 18 anos do entorno da comunidade, o homem afirma nunca ter pensado que viveria este tipo de situação.

"Fiquei na casa da minha cunhada por algumas horas, onde parecia ser mais seguro, e voltei para casa depois que os policiais finalizaram a perícia. O que vi era indescritível. Foi a pior cena que já vi. Não deixei outros familiares subirem ao segundo andar, onde as pessoas foram atingidas, e limpei tudo sozinho. Acho que nenhum familiar meu merecia a lembrança daquele rastro. Resolvi que só eu ficaria com ela", relata.

A casa, apesar de limpa, continua desocupada.

Não consigo subir as escadas, levar meu filho lá para dentro. Ele disse para a mãe que não queria voltar para casa, porque os policiais ainda estavam lá dentro. O que posso fazer, se foi a última cena que ele viu da casa em que foi criado? Eu, ele, a família toda.
Familiares relatam medo

Na reunião com representantes da Defensoria Pública do estado ontem, familiares das vítimas voltaram a relatar medo de morar nas comunidades que foram alvos da operação. Eles dizem que as vítimas foram torturadas antes de serem mortas.

Uma das mães presentes ao encontro, que pediu para não ser identificada, mostrou à imprensa os laudos das mortes dos seus dois filhos, fornecidos pelo IML (Instituto Médico Legal). O documento cita "ferimentos transfixantes do tórax e ação pérfuro contundente".

Meus filhos cometeram erro? Sim. Mas tinham direito a julgamento. Não podiam ter sido executado friamente

Os familiares das vítimas também disseram ter ouvido ameaças dos policiais presentes à ação. "Disseram que eu seria a próxima, que iriam rir de mim, mas eu tenho outros dois filhos para criar", disse a mãe de outra vítima.

O defensor Público Pedro Strozenberg reforçou que os relatos dos moradores convergem sobre a impressão de que houve tortura e execução das vítimas. "O caso precisa ser apurado e cabe a nós acompanhar isso. Aos responsáveis, cabe a apresentação rápida e transparente dos laudos", resumiu.