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Arqueólogos descobrem gravuras rupestres de mais de 4.000 anos no PR

Raquel Schwengber/Espaço Arqueologia/Iphan 
Cerca de 150 gravuras rupestres foram encontradas em um sítio arqueológico em Capitão Leônidas Marques, no sudoeste do Paraná. De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pesquisadores estimam que as figuras foram esculpidas em três rochas há pelo menos 4 mil anos.

Chamado de Vista Alta, o sítio arqueológico é alvo de pesquisas desde 2009, após ser identificado durante o licenciamento ambiental de uma usina hidrelétrica. De acordo com o Iphan, foi em janeiro que se iniciou uma avaliação "mais profunda" do local por estar "sofrendo impactos decorrentes de outras atividades".

Uma equipe de pesquisadores brasileiros e portugueses fez fotografias do local com drone, que serão divulgadas em material cartográfico e utilizadas para modelos digitais do terreno. O Iphan solicitou um estudo para verificar a possibilidade de transformar o sítio arqueológico em um local de visitação.

"Todo o material que se encontra em estudo possibilitará produzir um vasto conjunto informações sobre o sudoeste do Paraná, bem como dados interpretativos sobre o comportamento humano nesta região, tanto nos aspectos tecnológicos como simbólicos. O sítio é considerado de alta relevância e a sua localização privilegiada, em área não afetada diretamente pelo barramento, faz com que ele tenha grande potencial para ser preservado, estudado e visitado", informou a instituição.

Ao todo, o Brasil tem mais de 26 mil sítios arqueológicos cadastrados no Iphan, dos quais cerca 1.300 estão localizados no Paraná.

Atualização: 08/04/2019

Vestígios de um passado humano há mais de 7.900 anos
Equipe internacional conduz pesquisa que busca desvendar aspectos do comportamento humano pré-histórico no sudoeste do Paraná.

Buscando compreender o comportamento humano na região do Baixo Iguaçu, uma equipe de investigadores brasileiros e europeus avançam sobre novos resultados que apontam para uma ocupação humana por grupos caçadores-coletores que teria iniciado há pelo menos 7.920 anos antes do presente.
A pesquisa está sendo feita no âmbito do licenciamento ambiental da Usina Hidrelétrica Baixo Iguaçu, e os primeiros resultados começaram a sair no início de 2019, momento em que um dos 26 sítios arqueológicos estudados até o momento passou por um minucioso levantamento.
Se trata do Vista Alta I, sítio arqueológico no qual especialistas do Brasil e de Portugal passaram duas semanas documentando mais de 150 gravuras rupestres. A descoberta, ligada ao comportamento simbólico humano, passou a ser um motor de curiosidades sobre quem foram os autores das gravuras, chamando a atenção da imprensa regional.

Depois do levantamento, os dados foram processados em laboratório e passaram pela análise dos pesquisadores. Segundo a Professora Doutora Sara Garcês, do Instituto Terra e Memória de Mação – Portugal, o trabalho feito neste sítio possibilitará compreender mais sobre o comportamento simbólico dos grupos humanos que ocuparam a região há milhares de anos.
Uma vez que não existe método que possibilite fazer uma datação precisa de gravuras como as encontradas, foi considerada a data obtida através da escavação de outro sítio arqueológico próximo nomeado BI04, cujas amostras de carvão coletadas há quase 2 metros de profundidade dataram de 7920 ± 30 antes do presente. Este resultado possibilitou atribuir uma datação relativa aos motivos gravados. Outro indício da antiguidade do sítio foi obtido com os resultados na análise da fotografia 3D feita nas rochas, onde os especialistas constataram que o nível de desgaste dos desenhos se dá por conta de uma ação longa do tempo.

Segundo a equipe de pesquisa da empresa de consultoria Espaço Arqueologia de Tubarão - SC, coordenada pelos arqueólogos Valdir L. Schwengber, Raul Viana Novasco, Jedson Francisco Cerezer e Alessandro De Bona Mello, os sítios estudados no projeto representam diferentes momentos da história do povoamento humano no sudoeste paranaense.
Todas as evidências materiais advindas dos sítios escavados, como ferramentas em pedras, fragmentos cerâmicos, restos de fogueiras e demais informações, passaram por processos cuidadosos de curadoria para compor um quadro amplo de análise que possibilitou iniciar diversas discussões acerca dos dados coletados.

A relevância da pesquisa abriu a oportunidade de alcançar respaldo científico nacional e internacional. De acordo com o diretor da Espaço Arqueologia, Professor Dr. Valdir L. Schwengber, o projeto na Usina Hidrelétrica Baixo Iguaçu traz para os trabalhos de arqueologia preventiva uma nova perspectiva de intervenção no território, pois este e outros projetos de menor envergadura, somados, possibilitaram a construção de um projeto maior intitulado “Dinâmicas humanas de ocupação territorial no Baixo Iguaçu” que hoje faz parte dos projetos de pesquisa da rede internacional filiada ao Grupo de Quaternário e Pré-história Centro de Geociências da Universidade de Coimbra-Portugal, bem como de grupos de pesquisas nacionais e projetos coletivos da própria Espaço Arqueologia.

Neste amplo cenário de investigações e dinâmicas interventivas no território, onde a iniciativa privada e a pesquisa científica caminham juntas, é o patrimônio cultural e as humanidades quem mais ganham. Esta é a afirmação do Coordenador do Centro de Geociência e também Presidente do Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas da Unesco. Em sua parceria com a Espaço Arqueologia, Professor Doutor Luiz Oosterbeek destaca a criação da rede internacional de pesquisa, evento que possibilitou a vinda de diversos investigadores europeus ao Brasil afim de somarem esforços na temática do Baixo Iguaçu.


Cronologia, tecnologia e paisagem
Dos sítios com contextos mais recentes, datados de 300 anos antes do presente, a equipe apresenta os resultados para grupos ceramistas, cuja cultura material remete ao “guarani antigo” – grupos que dominavam técnicas de cultivo e manejo de espécies vegetais com produção de vasilhas cerâmicas em larga escala.
Segundo o arqueólogo Doutor Jedson Cerezer, especialista no assunto, estes grupos guaranis teriam iniciado uma expansão desde o território amazônico, por volta de 4 a 5 mil anos atrás, rumando ao sul do continente americano. Lá, colonizaram as terras baixas marcando território, em termos arqueológicos, pela reprodução de cerâmicas associadas a Tradição Policroma Amazônica. No Baixo Iguaçu, junto a calha do Rio Iguaçu, estes grupos formaram assentamento por volta do século XV de nossa era, segundo datações obtidas em restos de carvão por C14(carbono quatorze) a ocupação gira em torno do ano de 1.460 (490 anos Antes do Presente).
Recuando mais no tempo, vestígios de grupos de caçadores coletores foram identificados por volta de 3.000 anos antes do presente, onde hoje é uma ilha no meio do Rio Iguaçu. De acordo com o geólogo Italiano Doutor Pierluigi Rosina, do Instituto Politécnico de Tomar- Portugal, a dinâmica da paisagem nesta região vem sofrendo alterações desde sua formação, porém a presença humana vivenciou os últimos episódios, que, neste caso, condizem com a formação dos barrancos e muito provavelmente o alargamento de um canal lateral que separou uma porção de terra formando o que hoje é uma ilha.
O domínio do território é marcado fortemente pela tecnologia, a recorrência de padrões técnicos em diferentes sítios arqueológicos demonstra, sobretudo, para os grupos caçadores-coletores que conceitos tecnológicos de produção e utilização de artefatos em pedra lascadas permaneceram por milênios, sendo um marcador cultural de cunho tecno-funcional. O especialista em tecnologia lítica e estudos experimentais, Doutro Stefano Grimaldi, da Universidade de Trento-Itália, lança o olhar para um padrão tecnológico e tipológico na região, onde as pedras disponíveis nas praias de seixos do Rio Iguaçu e afluentes são trabalhadas de forma padronizada, onde gestos técnicos são empregues em cada sequência de operação para construção de artefatos que permanecem no tempo e no espaço.
As dinâmicas na paisagem são fatores relevantes para entender o território dentro de um olhar sobre as estratégias de sobrevivência e adaptação. Esta é uma consideração feita pelo também arqueólogo Doutor Raul Viana Novasco, que olha para o Baixo Iguaçu como um canal de entrada de grupos humanos para o planalto paranaense onde, ao longo do tempo, diferentes culturas fomentaram seus modos de vidas com diferentes estratégias tecnológicas e sociais.


Crédito fotos: Raquel Schwengber/Espaço Arqueologia