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Urgência vermelha e 2 litros de sangue: as 17 horas que Bolsonaro passou no hospital

6.set.2018 - Jair Bolsonaro (PSL) é esfaqueado durante ato de campanha 

O relógio da sala de espera marcava 15h40 quando quando um tumulto tomou conta da Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, no interior de Minas Gerais. O candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) chegava ao pronto-socorro do local carregado por seus seguranças.

O presidente do hospital, Renato Loures, contou, em entrevista exclusiva à BBC News Brasil nesta sexta-feira dentro da Santa Casa, como foram cada uma das horas de Bolsonaro no prédio.

"O quadro que ele entrou no hospital era extremamente grave. Se houvesse qualquer tipo de atraso no seu atendimento, poderia levá-lo à morte, pela gravidade do ferimento. Ele (Bolsonaro) estava preocupado pelo estado de saúde dele, mas estava muito debilitado e não pôde demonstrar tanto", afirmou Loures.

"O candidato deu entrada no serviço de emergência em estado grave, com uma queda de pressão arterial extremamente grande", relembra Loures. Ele foi imediatamente classificado como um caso de urgência vermelho, o mais grave que o hospital pode atender. Assim que ele entrou na chamada "sala vermelha", para onde são encaminhados casos assim, um batalhão de médicos passou a agir.

"Começaram a pegar acesso venoso, hidratá-lo, verificar como estavam os sinais vitais dele. Ele estava lúcido, consciente, conversando com a gente. Mas foi diagnosticado com uma grave queda de pressão, que poderia levar a uma parada cardiorrespiratória", afirmou a diretora médica da Santa Casa, Eunice Dantas, à reportagem.

A médica conta que Bolsonaro estava agitado. "Mas a gente conversou com ele, dissemos que tomaríamos todos os cuidados e todo aquele movimento de seguranças, filhos, Polícia Federal, gera uma comoção que deixa o paciente mais agitado mesmo. Fora que ele estava sentindo dor, desconforto e mal-estar por causa do sangramento", contou Dantas.

Ela afirma que o furo na barriga não demonstrava, mas ela desconfiava que Bolsonaro tinha um grande sangramento por conta de sua queda de pressão, palidez e sudorese. Mas era necessário fazer exames para comprovar o quadro.
"Imediatamente, ele foi levado para fazer exames de ultrassom e tomografia, que evidenciou que ele tinha um sangramento importante. Aí, não era momento de esperar mais nada. Era levar para o centro cirúrgico e abrir", contou ela.

Entre a chegada ao hospital e a mesa de cirurgia, passaram-se cerca de 15 minutos.

Questionada, a médica disse que esse procedimento ocorre com qualquer outro paciente que chega ao local com esse grau de necessidade. "Isso não é uma questão Jair Bolsonaro. É uma questão urgência/ emergência da Santa Casa."
Cirurgia de três horas

Na sala de operação, Bolsonaro foi atendido por dez médicos, entre anestesistas, cirurgiões gerais, abdominais e vasculares. Alguns estavam em casa e, por fazerem parte da equipe de plantão de sobreaviso, foram acionados. Foi feito um corte de cerca de 30 centímetros na barriga do candidato - da parte inferior do peito até o início da região pubiana.

Foi verificado um sangramento intenso no abdômen com um acúmulo de cerca de 2 litros de sangue devido a uma lesão em uma veia mesentérica superior, na parte de cima da barriga.

Imediatamente, toda a equipe se mobilizou para estancar o sangramento, que colocava a vida do candidato em risco, segundo os médicos. Em seguida, eles identificaram outros três cortes no intestino delgado e outro quase total do intestino grosso, no colo transverso.

Loures explicou que os ferimentos se agravaram no momento em que a faca saiu da barriga do candidato. "Aquilo saiu cortando tudo. O cara enfiou a faca toda nele e voltou", disse o médico.

Foram feitas as suturas. No intestino grosso, os médicos retiraram a parte atingida e colocaram uma bolsa de colostomia, por onde as fezes e gases do candidato devem sair pelo menos durante os próximos dois meses.

Ainda foram feitas diversas lavagens intestinais para retirar as fezes acumuladas no abdômen de Bolsonaro para diminuir o risco de infecção.

De acordo com o presidente do hospital, a cirurgia durou cerca de três horas e, durante o procedimento, Jair Bolsonaro recebeu quatro bolsas de sangue - o equivalente a 2 litros. "Foi uma cirurgia muito grande, mas foi um sucesso", explica Loures.

Após ao procedimento, ele foi encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva do Hospital (UTI), já respirando sem aparelhos. Equipes dos hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês viajaram de São Paulo para Juiz de Fora acompanhar de perto a recuperação do candidato.

Pela manhã, ele foi reavaliado e a família pediu para fosse transferido para o hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ele deixou a Santa Casa por volta das 8h30.

O presidente da Santa Casa de Juiz de fora, que faz cerca de 20 mil cirurgias por ano, disse que Bolsonaro deve receber alta entre 7 a 10 dias, mas devendo manter repouso em casa.
"Nos primeiros 20 dias, ele terá grandes dificuldades, sem nenhuma chance de fazer campanha na rua. Ele pode fazer gravações em casa", explicou.
Ele afirmou que o candidato deve respeitar o repouso porque há o risco de infecção devido à presença de fezes na cavidade abdominal, além de possíveis complicações causadas por uma cirurgia de grande porte, como pneumonia e embolia pulmonar.

"Ele deve se recuperar plenamente e a colostomia poderá ser retirada entre dois e três meses", concluiu.
Mãe do Itamar Franco foi internada no mesmo hospital

A equipe e a família de Bolsonaro fizeram um grande tumulto na porta do hospital com a chegada do candidato. Foi necessária a mobilização de todos os seguranças da Santa Casa e dezenas de policiais militares e federais para conter a aglomeração na porta do local.

Já na sexta-feira, após a transferência para São Paulo, o clima nos corredores da instituição era tranquilo, sem policiais ou grande concentração de pessoas.

O hospital estava preparado para aquela que seria a maior crise que já presenciou no local, segundo o presidente da instituição, que trabalha ali há 45 anos e está à frente dela desde 2010.

"Já tivemos várias situações de tumulto. Inclusive quando o Itamar Franco era presidente e a mãe dele foi atendida aqui. Naquela época, houve uma grande repercussão, mas nada como desta vez", conta Loures.

Franco foi prefeito de Juiz de Fora, cidade onde nasceu, por dois mandatos, antes de se tornar senador e presidente da República.
Telefonemas de presidenciáveis e autoridades

Durante o período em que Bolsonaro esteve na Santa Casa de Juiz de Fora, Loures recebeu incontáveis telefonemas de pessoas buscando informações sobre o candidato. Alguns deles, de seus concorrentes à Presidência.

"Vários deputados, ligações de outros candidatos a presidente pedindo informações. Mas ressalto o papel fundamental da Polícia Militar e agradeço o apoio do coronel Alexandre Nocelli."